Quando você pensa em quem criou o black metal, provavelmente imagina a Noruega dos anos 90 com suas montanhas nevadas e uma cena underground brutal. Mas a verdade é que o black metal nasceu de uma fusão entre o thrash metal agressivo, o death metal caótico e uma atitude verdadeiramente anti-establishment que nenhuma outra cena conseguiu capturar tão intensamente. Bandas como Mayhem, Burzum e Darkthrone foram os arquitetos dessa revolução sonora que transformou o metal em algo muito mais raw, primitivo e perturbador do que jamais havia sido.

O black metal não é apenas um gênero musical—é uma filosofia, uma estética e um lifestyle que moldou gerações de metalheads ao redor do mundo. Desde os vocais guturais que parecem vir do abismo até as guitarras dissonantes que criam uma atmosfera quase hipnotizante, cada elemento foi pensado para desafiar o convencional. Essa rebeldia que define o black metal continua viva na comunidade metal até hoje, influenciando não apenas a música, mas também a moda, a arte visual e a identidade de quem se identifica com essa cultura alternativa.

Quem criou o black metal: a origem do gênero e seus verdadeiros fundadores

A pergunta “quem criou o black metal” parece simples, mas esconde décadas de história, controvérsias e uma evolução sonora que dividiu o gênero em ondas completamente distintas. A resposta curta é: o Venom, banda britânica de Newcastle, foi a responsável por cunhar o nome e lançar as bases conceituais do gênero. Mas a história completa envolve suecos, noruegueses, dinamarqueses, igrejas em chamas e uma das cenas musicais mais radicais que o mundo já viu.

O black metal não nasceu pronto. Ele foi construído em camadas — primeiro como atitude e estética, depois como som e ideologia. Entender quem o criou exige separar o batismo do gênero da sua consolidação sonora, porque essas são duas histórias diferentes que se cruzam em pontos específicos da história do metal extremo.

Venom: a banda que cunhou o nome ‘black metal’

O Venom surgiu em Newcastle, Inglaterra, no final dos anos 1970, formado por Conrad “Cronos” Lant (baixo e vocal), Jeff “Mantas” Dunn (guitarra) e Anthony “Abaddon” Bray (bateria). A banda era suja, barulhenta, tecnicamente imperfeita e absolutamente intencional em tudo isso. Enquanto o heavy metal convencional da época, representado por bandas como Iron Maiden e Judas Priest, priorizava produção refinada e virtuosismo, o Venom jogou tudo isso pela janela e apostou em brutalidade crua, temática satânica explícita e uma energia caótica que antecipou décadas do que viria depois.

Como Cronos (Venom) inventou o termo ‘black metal’ e o que ele quis dizer com isso

Cronos afirmou em diversas entrevistas que o termo “black metal” surgiu de forma quase intuitiva, como uma maneira de descrever algo mais pesado, mais sombrio e mais extremo do que o heavy metal tradicional. Ele queria um nome que transmitisse imediatamente a escuridão e a maldade que o Venom pretendia evocar. O “black” não era apenas uma cor — era uma declaração de intenção. Em suas próprias palavras, o objetivo era criar algo que soasse como “o diabo fazendo música”.

Cronos também deixou claro que não havia uma filosofia elaborada por trás do termo na época. Era provocação, teatro e marketing de choque — mas uma provocação que ressoou tão profundamente na comunidade metal que se transformou em um dos rótulos mais duradouros e influentes da história do rock pesado. O que começou como atitude virou gênero.

O álbum ‘Black Metal’ (1982): o disco que batizou um gênero

Lançado em novembro de 1982, o álbum Black Metal do Venom é o disco que oficialmente deu nome ao gênero. O registro anterior, Welcome to Hell (1981), já havia estabelecido a sonoridade e a temática da banda, mas foi Black Metal que colocou o rótulo no mapa. Faixas como “Black Metal”, “Buried Alive”, “Countess Bathory” e “In League with Satan” definiram um vocabulário temático e sonoro que seria explorado por gerações de bandas.

A produção do álbum era deliberadamente áspera. A distorção excessiva, o vocal agressivo e a bateria pesada não eram limitações técnicas — eram escolhas estéticas que comunicavam algo que o metal convencional não conseguia. Esse disco é considerado até hoje uma das pedras fundamentais de toda a cena do metal extremo, influenciando não apenas o black metal, mas também o thrash metal, o death metal e o speed metal.

Venom é black metal ou thrash metal? Entendendo a distinção

Essa é uma das discussões mais recorrentes entre fãs e críticos de metal. O Venom é frequentemente classificado como speed metal, thrash metal ou simplesmente como um precursor que não se encaixa perfeitamente em nenhuma categoria. A sonoridade da banda tem elementos que antecipam o thrash — a velocidade, a agressividade rítmica, a distorção pesada — mas a temática, a estética e a atitude são inegavelmente os alicerces do black metal.

Por que Venom é considerada a primeira banda de black metal mesmo sendo classificada de formas diferentes

A resposta está na distinção entre influência fundacional e representação sonora perfeita. O Venom não soa como o black metal norueguês dos anos 1990 — as guitarras não têm aquele tremolo picking frenético, a produção não é propositalmente lo-fi e não há teclados atmosféricos. Mas o Venom foi a banda que criou o nome, estabeleceu a imagética satânica, a estética sombria e a postura anti-establishment que se tornaram marcas registradas do gênero.

Pense assim: o Venom é para o black metal o que o Black Sabbath é para o heavy metal em geral — uma origem que não soa exatamente como o que veio depois, mas sem a qual nada do que veio depois existiria. A paternidade do gênero é conceitual e nominal, não necessariamente sonora.

A primeira onda do black metal: Venom, Bathory e Mercyful Fate

A chamada “primeira onda do black metal” engloba as bandas dos anos 1980 que beberam diretamente do Venom e expandiram o conceito para territórios sonoros e temáticos mais extremos. Três nomes são fundamentais nessa fase: o próprio Venom, o Bathory sueco e o Mercyful Fate dinamarquês.

Bathory e Quorthon: o papel fundamental na consolidação do som extremo

O Bathory, projeto solo do sueco Tomas Forsberg — conhecido pelo pseudônimo Quorthon — é frequentemente apontado como a banda que mais se aproximou do que o black metal se tornaria sonicamente na segunda onda. Os primeiros álbuns da banda, especialmente Bathory (1984), The Return (1985) e Under the Sign of the Black Mark (1987), apresentavam guitarras rasgadas, vocais guturais e atmosféricos, produção propositalmente suja e temáticas pagãs e satânicas.

Quorthon foi um dos primeiros a usar o tremolo picking como elemento central da guitarra, a criar atmosferas densas e opressivas e a incorporar elementos de paganismo nórdico que mais tarde se tornariam uma das vertentes mais importantes do black metal escandinavo. Sem o Bathory, a segunda onda norueguesa teria um som completamente diferente — ou talvez nem existisse da forma que conhecemos.

Mercyful Fate e King Diamond: a influência satânica e teatral no gênero

O Mercyful Fate, liderado pelo enigmático King Diamond, trouxe uma dimensão diferente para a primeira onda. Enquanto o Venom era caos e brutalidade e o Bathory era escuridão atmosférica, o Mercyful Fate adicionou sofisticação musical, narrativas conceituais e uma teatralidade satânica que influenciou profundamente a estética do gênero. Álbuns como Melissa (1983) e Don’t Break the Oath (1984) são obras-primas do metal extremo que combinam técnica apurada com temática ocultista genuinamente perturbadora.

King Diamond praticava o satanismo LaVeyano de forma declarada e usava o palco como espaço ritualístico — uma postura que seria radicalizada pelas bandas norueguesas anos depois, mas que encontrou no Mercyful Fate sua expressão mais articulada dentro do metal dos anos 1980.

A segunda onda do black metal: a Noruega e a radicalização do gênero nos anos 1990

Se a primeira onda criou o nome e os alicerces conceituais, foi a segunda onda norueguesa, no início dos anos 1990, que definiu o black metal como o mundo o conhece hoje. Esse movimento foi mais radical, mais coeso esteticamente e, em muitos casos, mais violento — tanto na música quanto nas ações reais de seus protagonistas.

Mayhem: a banda que redefiniu o black metal norueguês

O Mayhem, formado em Oslo em 1984, é o epicentro da segunda onda. A banda reuniu alguns dos personagens mais controversos da história do metal: Øystein “Euronymous” Aarseth (guitarra), Per Yngve Ohlin — o “Dead” (vocal) e Varg Vikernes — o “Count Grishnackh” (baixo), além de Jan Axel “Hellhammer” Blomberg (bateria). O álbum De Mysteriis Dom Sathanas (1994) é considerado o disco mais importante do black metal norueguês e um dos mais influentes de toda a história do metal extremo.

A trajetória do Mayhem foi marcada por tragédias reais: o suicídio de Dead em 1991 e o assassinato de Euronymous por Varg Vikernes em 1993. Esses eventos transformaram a banda em uma lenda sombria e alimentaram a narrativa de que o black metal norueguês era algo além de música — era uma declaração de guerra à sociedade.

Burzum, Darkthrone e Emperor: os pilares da cena norueguesa

O Burzum, projeto solo de Varg Vikernes, redefiniu o conceito de black metal atmosférico. Com produção deliberadamente lo-fi, riffs repetitivos e hipnóticos e uma estética de isolamento e paganismo nórdico, o Burzum criou um subgênero dentro do subgênero. Álbuns como Burzum (1992) e Filosofem (1996) são referências absolutas do gênero.

O Darkthrone, que começou como uma banda de death metal, fez uma transição radical para o black metal com A Blaze in the Northern Sky (1992). A produção intencionalmente primitiva e o som gelado do álbum se tornaram um modelo estético que dezenas de bandas tentaram replicar. Já o Emperor trouxe uma camada de grandiosidade sinfônica ao gênero, incorporando teclados e arranjos complexos sem abrir mão da agressividade. In the Nightside Eclipse (1994) é um dos discos mais importantes da segunda onda.

O círculo de Bergen e Oslo: como a cena norueguesa se organizou e radicalizou

A cena norueguesa se organizou em torno de dois polos principais: Bergen, cidade natal de Varg Vikernes e do Burzum, e Oslo, onde o Mayhem e o Darkthrone operavam. O ponto de encontro físico e ideológico era a loja de discos Helvete, de propriedade de Euronymous, em Oslo — um espaço que funcionava como quartel-general da cena e onde o chamado Inner Circle se reunia.

O Inner Circle era um grupo informal de músicos e figuras da cena que compartilhavam uma ideologia anti-cristã radical e acreditavam que o black metal deveria ser uma força genuinamente destrutiva, não apenas música. Essa mentalidade levou diretamente aos eventos mais sombrios da história do gênero.

A sinistra história real por trás do black metal norueguês: incêndios e crimes

O black metal norueguês dos anos 1990 não é apenas uma história musical — é também uma crônica criminal. Entre 1992 e 1996, dezenas de igrejas históricas foram incendiadas na Noruega, muitas delas com séculos de história. Varg Vikernes foi condenado pelo incêndio de várias igrejas e pelo assassinato de Euronymous em 1993, cumprindo 15 anos de prisão. Outros membros da cena também foram presos por crimes que iam de vandalismo a homicídio.

Queima de igrejas e violência: o lado obscuro da cena nos anos 1990

Os incêndios eram vistos por parte da cena como atos políticos e ideológicos — uma rejeição visceral ao cristianismo e uma tentativa de “despaganizar” a Noruega. A Igreja de Fantoft, em Bergen, uma das mais antigas do país, foi destruída em junho de 1992. O ato gerou comoção nacional e colocou o black metal norueguês sob escrutínio policial e midiático intenso.

Esses eventos polarizaram a cena. Muitos músicos se distanciaram da violência e do extremismo, enquanto outros a glorificaram. O resultado foi uma mitologia negra que até hoje define a percepção pública do gênero — e que serve de pano de fundo para documentários, livros e até filmes como Lords of Chaos (2018).

Características que definem o black metal como gênero único

Além da história e da polêmica, o black metal se distingue por um conjunto específico de características sonoras, visuais e ideológicas que o separam de outros subgêneros do metal extremo.

Sonoridade, estética e ideologia: o que separa o black metal de outros subgêneros do metal extremo

Do ponto de vista sonoro, o black metal clássico é caracterizado por:

  • Tremolo picking em velocidade extrema nas guitarras, criando uma textura densa e cortante
  • Produção lo-fi intencional — o ruído e a aspereza são parte da estética, não falhas técnicas
  • Vocais em shriek — gritos agudos e rasgados, completamente diferentes dos guturais do death metal
  • Blast beats na bateria, com padrões de alta velocidade e intensidade
  • Atmosfera densa e opressiva, frequentemente reforçada por teclados ou camadas de guitarra

Do ponto de vista estético, o black metal criou um visual imediatamente reconhecível: o corpse paint — maquiagem em preto e branco que simula um rosto cadavérico — couro com tachas, spikes e uma paleta visual que mistura medievalismo, paganismo e iconografia satânica. Se você busca montar um visual para shows de metal, confira nossas dicas de roupas masculinas para show de rock e looks para show de rock para referências de estilo alternativo.

Do ponto de vista ideológico, o black metal é heterogêneo. Há vertentes anti-cristãs, satânicas, pagãs, filosóficas e até puramente musicais. O que une todas elas é uma rejeição ao mainstream e uma valorização da escuridão como força criativa e expressiva.

Linha do tempo: a evolução do black metal desde 1982 até hoje

  • 1982 — Venom lança Black Metal, batizando oficialmente o gênero
  • 1984–1987 — Bathory e Mercyful Fate consolidam a primeira onda com sonoridade e temática mais extremas
  • 1991–1994 — Segunda onda norueguesa explode com Mayhem, Burzum, Darkthrone e Emperor; incêndios de igrejas e crimes marcam a cena
  • 1994–1999 — O gênero se expande globalmente; surgem vertentes como black metal sinfônico (Dimmu Borgir, Cradle of Filth) e black metal melódico
  • 2000–2010 — Proliferação de subgêneros: black metal atmosférico, DSBM (depressive suicidal black metal), black metal folclórico e pagan metal
  • 2010–hoje — Nova geração de bandas como Deafheaven, Wolves in the Throne Room e Batushka ampliam as fronteiras do gênero, incorporando shoegaze, post-rock e música litúrgica ortodoxa

O black metal hoje é um dos subgêneros mais vivos e diversificados do metal extremo. Longe de ser uma relíquia dos anos 1990, continua gerando debates, novos sons e novas polêmicas — exatamente como sempre fez. Para quem quer mergulhar na cultura metal e expressar essa identidade no dia a dia, vale explorar opções de roupas e acessórios de rock e estilo rock clássico que dialogam com essa estética.

FAQ: Quem criou o black metal?

Quem criou o black metal?
O black metal foi criado pelo Venom, banda britânica de Newcastle, que lançou o álbum homônimo Black Metal em 1982 e cunhou o termo que batizaria o gênero. A consolidação sonora do estilo como o conhecemos hoje veio posteriormente com bandas como Bathory, Mercyful Fate e, na segunda onda, com o Mayhem, Burzum e Darkthrone na Noruega.

Qual foi a primeira banda de black metal da história?
O Venom é amplamente reconhecido como a primeira banda de black metal, tanto por ter cunhado o nome quanto por estabelecer a estética e a temática que definem o gênero. O álbum Welcome to Hell (1981) é considerado o precursor, e Black Metal (1982) é o marco oficial.

Por que o Venom é considerado o criador do black metal se o som é diferente do que conhecemos hoje?
Porque a paternidade do gênero é conceitual e nominal, não sonora. O Venom criou o nome, a estética sombria e a atitude que definem o black metal. O som específico — tremolo picking, vocais em shriek, produção lo-fi — foi desenvolvido por bandas posteriores, especialmente na segunda onda norueguesa. O Venom está para o black metal assim como o Black Sabbath está para o heavy metal em geral: a origem que tornou tudo possível.

O black metal surgiu na Noruega ou na Inglaterra?
O black metal surgiu na Inglaterra, com o Venom em 1982. A Noruega foi o epicentro da segunda onda, nos anos 1990, que radicalizou o som e a ideologia do gênero e criou o estilo que a maioria das pessoas associa ao black metal hoje.

Qual a diferença entre a primeira e a segunda onda do black metal?
A primeira onda (anos 1980) inclui Venom, Bathory e Mercyful Fate — bandas que criaram as bases sonoras e temáticas do gênero dentro de um contexto ainda ligado ao heavy metal tradicional. A segunda onda (anos 1990, principalmente na Noruega) radicalizou tudo: produção mais suja, som mais extremo, ideologia anti-cristã mais intensa e, em alguns casos, envolvimento em crimes reais como incêndios de igrejas.

Cronos realmente inventou o termo ‘black metal’? O que ele disse sobre isso?
Sim. Cronos, vocalista e baixista do Venom, afirmou em múltiplas entrevistas que o termo surgiu como uma forma de descrever algo mais sombrio e extremo do que o heavy metal convencional. Ele reconhece que não havia uma filosofia elaborada por trás do nome na época — era intuição e provocação. Mas admite que o impacto do termo superou qualquer expectativa que pudesse ter tido quando o álbum foi lançado em 1982.

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